F1: A "Farsa" das 120 Ultrapassagens e a "TikTokização"

F1: A “Farsa” das 120 Ultrapassagens e a “TikTokização”

10/03/2026|6 min|

Flavio Gomes desmistifica os números e alerta para a perda da essência da categoria com o novo regulamento.

A Contagem de Ultrapassagens: Números Bonitos, Realidade Crua

A Fórmula 1, através de seus donos, o Liberty Media Group, e com o coro de ‘polianas’ de plantão, celebra as 120 ultrapassagens no Grande Prêmio da Austrália, um número que contrasta com as 45 do ano anterior. Para muitos, um atestado de sucesso do novo regulamento. Mas será mesmo? Flavio Gomes, em mais um ‘Pé no Porão’ no Foi Que Eu Disse TV, joga um balde de água fria nessa euforia. Ele questiona a relevância de um número que, na prática, não se traduz em momentos memoráveis ou disputas épicas. “Nenhuma entrou para a história”, crava Gomes, lembrando que ultrapassagens históricas, como a de Piquet sobre Senna na Hungria ou a de Verstappen sobre Hamilton em Abu Dhabi 2021, são exceções que marcam pela raridade e pelo contexto decisivo, e não pela quantidade.

O apresentador aponta que a grande maioria dessas ultrapassagens é artificial, fruto do sistema de gerenciamento de energia dos carros. “Você tem um carro de corrida que, quando você chega no meio de uma reta a 300 por hora, de repente ele faz assim, ó, e cai para 200. Por quê? Porque a bateria acaba”, explica, comparando a situação a um ‘ioiô besta’. A crítica se estende à falta de senso crítico da mídia e dos influenciadores, que reproduzem discursos sem a devida análise, e até mesmo à transmissão da TV Globo, que, segundo ele, tende a pintar tudo de rosa. Gomes lamenta a ausência de uma abordagem mais honesta e crítica, que deveria ser a marca de um jornalismo esportivo de qualidade.

GP da Austrália: Números em Destaque

120
Ultrapassagens registradas
45
Ultrapassagens em 2023
2ª
Posição de Antonelli (Mercedes)
6º
Posição de Verstappen após largar em último

O Drama dos Pilotos e a Descaracterização da Essência

A reclamação de Max Verstappen sobre a necessidade de gerenciar a bateria em vez de focar na pilotagem é o cerne da crítica de Flavio Gomes. O tetracampeão mundial, considerado por muitos o melhor piloto da atualidade, expressou frustração com um sistema que permite ultrapassar adversários com carros significativamente mais lentos, simplesmente porque estes estão com a energia esgotada. “Escuta, eu passei um monte de carro que é dois segundos mais lento do que eu”, teria dito Verstappen, evidenciando a injustiça e a falta de mérito esportivo em tais manobras.

Lando Norris, inicialmente mais otimista, também admitiu que os carros atuais se tornaram ‘talvez os piores de todos os tempos para guiar’, contrastando com a delícia de pilotar os modelos anteriores. A falta de ‘culhão’ de pilotos mais jovens em criticar abertamente a categoria, por medo de comprometer o sonho de correr na F1, agrava o cenário. Flavio Gomes relembra um episódio anterior do seu canal, intitulado ‘Ódio Eterno ao F1 Moderno’, onde já antecipava essa descaracterização. A polarização entre defensores do novo regulamento e aqueles que veem nessas ultrapassagens artificiais um desserviço à essência do automobilismo se intensifica.

O apresentador vai além, argumentando que essa dinâmica de ‘passa e é repassado’ por conta da bateria não é nem mesmo a essência de uma corrida de carro. “Não é que não é essência da Fórmula 1, não é sequer a essência de corrida de automóvel. Não é a essência de corrida de carro”, sentencia. A preocupação é que a categoria, em sua busca por um público mais jovem e imediatista, acabe se perdendo em um espetáculo superficial, desprovido da profundidade e do desafio que sempre caracterizaram o automobilismo de elite.

Escuta, eu passei um monte de carro que é dois segundos mais lento do que eu. A disputa é injusta inclusive porque quando eu passava eu estava lá com uma carga de bateria X e o coitado estava lá se esgoelando comendo a tal da bateria, acabando com a sua energia e aí quando ele acabava com a energia eu chegava e passava porque não precisava de muito muita habilidade para isso.— Max Verstappen (relatado por Flavio Gomes)

A ‘TikTokização’ da F1: O Perigo do Entretenimento Superficial

A preocupação de Flavio Gomes com o futuro da Fórmula 1 se intensifica com o que ele denomina de ‘tiktokização’ do esporte. Ele critica a ideia, já ventilada pela própria categoria, de reduzir a duração das corridas para agradar a um público jovem com menor capacidade de atenção. “Vocês vão ser todos agora nós vamos ser todos escravos desta linguagem infame dos vídeos de 15 segundos, de 10 segundos do TikTok porque a tiktokização de uma corrida de Fórmula 1 é exatamente o que a gente viu nesse domingo”, desabafa.

A imagem que se desenha é a de uma categoria que prioriza o movimento frenético e superficial nos primeiros momentos da corrida, com trocas de posição constantes, em detrimento da estratégia, da habilidade pura e da emoção construída ao longo de uma prova mais longa. “Foram 10 voltas de movimento, de agito ali no começo, um passa o outro, o outro passa um, ai que legal, próximo vídeo. É isso? Nós queremos ver corrida de 10 voltas?”, questiona o apresentador.

Ele detalha como a complexidade dos carros modernos, com inúmeras funções e botões no volante, sobrecarrega os pilotos, especialmente nas voltas iniciais. A prioridade se torna não bater e gerenciar a energia, relegando a pilotagem pura a segundo plano. “Pilotar que é que que que que é bom fica é o último das prioridades”, lamenta. Flavio Gomes conclui com um apelo à criticidade: “Não caiam no conto da carochinha. Ai, que demais. Sejam críticos.” A Fórmula 1, para ele, corre o risco de se tornar um espetáculo de ‘belas merdas’ se não resgatar sua essência e parar de se vender como um mero festival de ultrapassagens artificiais. A próxima etapa na China, com sua longa reta, será um novo teste para essa teoria.

Você sabia?

A Fórmula 1 planeja um calendário com 24 etapas em 2024, o que significa corridas quase todo final de semana, mantendo o público engajado, mas também aumentando o risco de saturação e de perda de interesse em provas menos empolgantes. A busca por um público mais jovem e a influência das redes sociais como o TikTok levantam debates sobre a adaptação da categoria a formatos mais curtos e dinâmicos.

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